Depoimentos:

Nos últimos tempos tenho dado muitas entrevistas. É uma sensação estranha e nova. Dantes ninguém me perguntava nada…

Claro que é tudo por causa deste tema que ando a trabalhar. Um tema que mexe com a sensibilidade das pessoas… mesmo com aquelas que fingem que a guerra colonial nunca existiu, ou que, se existiu, está morta e não adianta fazer romarias ao cemitério.

Tenho dito muitas vezes que as razões de ordem política que me motivaram na adolescência foram substituídas por fatores de outra ordem. Quando era novo a questão política era imperiosa, estava viva e era-me fácil ser contra. Contra a opressão e a guerra. Como continuo a ser, porque sempre achei inadmissível a possibilidade de um povo ser dominado por outro. Mas esse assunto está encerrado. Do nosso cadáver colonial já só restam os ossos. Paz à sua alma.

E a minha atenção desviou-se. Esvaziada a razão de ser da minha revolta original, pude entender uma outra dimensão que até aí permanecera na sombra. E comecei a olhar as pessoas e o que se esconde nos sulcos da pele. Descobri as armas que matam, o amor asfixiado nas cartas e aerogramas, o terror da morte.

Mas revendo agora o que tenho andado a fazer, parece-me que a dimensão política do meu trabalho, em vez de se esvair, aumentou. Já não vejo o mundo a preto e branco – é estranho como a velhice nos faz descobrir cores que dantes eram invisíveis –, mas a opinião e a paixão não desapareceram, nem a vontade de denunciar. E por baixo das bandeiras os cadáveres ainda nos deixam ouvir um grito abafado. Está lá tudo, só que para descobrir não basta olhar. É preciso ver.

S. Pedro do Estoril, 21 de Abril de 2012

  • A série Matchbox: Portugal is Not a Small Country faz a denúncia de um dos grandes mitos do nosso passado colonial. A um antigo mapa de propaganda – com o qual o regime salazarista pretendia demonstrar a grandiosidade do império português na primeira metade do séc. XX socorrendo-se do estratagema de sobrepor as áreas das diversas colónias e territórios ultramarinos ao mapa da Europa –, associei fotografias de frente e verso de uma colecção de carteiras de fósforos com imagens dessas mesmas colónias que, depois de radicalmente ampliadas, nos surgem imprecisas e distantes.

    Março de 2010

  • Caro Mário Beja Santos
    […] O trabalho dessa época [anos 80] tem tudo a ver com as fotografias de agora; os nossos combatentes do ultramar que me serviram de inspiração, os que partiram daqui, da metrópole, pertencem em grande parte ao mundo retratado nesses desenhos e pinturas. A guerra de que falo é uma guerra de "pé descalço", de "burros" (não é por acaso que vocês chamavam burrinho ao Unimog) e "casebres" (as descrições das vossas instalações em Missirá são eloquentes), semelhante ao mundo rural, profundamente atrasado, da minha infância.  
    Certo ou errado, é isso que eu sinto.

    25 de Abril de 2008

  • CONFIDENCIAL/DESCLASSIFICADO

    Nos últimos anos vi crescer o meu desejo de identificação com os homens da minha geração que há muito tempo embarcaram para Angola, Guiné e Moçambique, escondidos atrás de um camuflado e uma G3. Sei que não fui um deles. Tive a fortuna de estar no último ano do curso de arquitectura quando o 25 de Abril pôs termo ao pesadelo que me ensombrou a adolescência, e já não experimentei a guerra ao vivo e em directo. Mas vivi-a intensamente, numa antecipação obsessiva que durou toda juventude.

    Desde então muito tempo passou, e a minha perspectiva da vida mudou também. A guerra na África portuguesa deixou de me interessar enquanto fenómeno político e passei a prestar uma outra atenção aos que a fizeram. Muitos (a esmagadora maioria), ainda estão vivos; têm sensivelmente a minha idade; estão carecas e cansados como eu. Alguns serão um pouco mais velhos, mas pertencemos todos a um mesmo tempo, a uma mesma condição. E eis-me a viver um estranho paradoxo: eu, que andei pelas ruas a berrar “nem mais um soldado para as colónias”, comecei a ter sentimentos de culpa por não ter partilhado esse tempo de abnegação e sacrifício. E a minha pintura começou a falar das memórias dessa guerra, como em “Escombros de Wiryiamu”, o massacre no norte de Moçambique que escandalizou o mundo e que evoquei através de um soldado (eu, já velho), sob a ameaça de insectos gigantescos e segurando desoladamente uma G3. Foi essa G3 que quis fotografar de seguida.

    Em 2006, depois da exposição em que apresentei esses trabalhos, senti que alguma coisa devia mudar. Sentia-me enclausurado. A pintura e desenho eram incapazes de traduzir com eficácia o universo temático que tinha em mente… porque, como costumo dizer aos meus alunos, há coisas que são “pintáveis”; outras não.

    Comprei uma máquina fotográfica nova e, quando em Setembro fui ao Museu Militar, tudo o que pretendia era fotografar uma G3 e uma Kalashnikov, as armas emblemáticas da guerra colonial. Talvez esse simples acto me apontasse um caminho novo. Talvez um registo impessoal desses vestígios me indicasse para onde seguir. Talvez o rigor metálico de uma G3 ditasse o futuro próximo da minha obra. E foi uma G3 que fotografei; e uma Kalashnikov; e uma FN; e uma Mauser. Às tantas tinha o chão coberto de armas. E aqueles 3 ou 4 dias iniciais começaram a multiplicar-se. Os dias transformaram-se em semanas, as semanas em meses. Em determinado momento já não sabia o que havia de fazer e desatei a inventar outras coisas, dando sequência a desenhos e pinturas anteriores e experimentado territórios completamente novos. E começaram as incursões à feira da Ladra. Comprei equipamento militar da época, velhos camuflados, cinturões, cantis, botas e quicos, e pouco depois estava a invadir o Museu com objectos de toda a ordem, grandes e pequenos: placas de madeira, tapetes de trapos, sardinhas enlatadas, plantas secas e terra, muita terra, cinzenta, vermelha… que fazia agora dialogar com granadas, facas de mato, pistolas, espingardas, minas anti-carro…

    Como estavam previstas 3 exposições simultâneas nos primeiros meses de 2008, acabei por isolar 3 núcleos mais ou menos autónomos, deixando de fora muitas dezenas de imagens potenciais. E assim se arrumaram as exposições no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, na galeria Lisboa 20 e na Fundação EDP.

    Embora ligadas por um fio condutor comum, foram 3 mostras muito diferentes. O “inventário” de Elvas apresentou quase exclusivamente fotografias de armas utilizadas ou apreendidas pelas forças armadas portuguesas, em registos mais ou menos neutros (isto embora uma das minhas grandes preocupações tenha sido descobrir a luz certa para cada caso, o que tornou essas imagens numa espécie de retratos… se é que isso se pode dizer de objectos inertes cuja função é matar). As outras duas exposições seriam mais alegóricas, evocando a guerra de uma forma quase sempre indirecta. Se na Lisboa 20 a “emboscada” ainda incluía algumas cenas de “acção” (?), outras imagens eram sobretudo rituais, com um velho combatente em dialogo consigo próprio ou à beira da loucura e do suicídio. E na “ração de combate”, exposta na EDP, foi a retaguarda que serviu de pano de fundo, e o tempo sem fim das unidades de quadrícula, esses aquartelamentos que desenharam nos mapas e gabinetes (que não necessariamente na realidade vivida) o domínio português desses territórios, ameaçados pelo desejo de autodeterminação.

    Em Setembro de 2008 estava de volta ao trabalho, não já no Museu Militar mas sim num espaço improvisado no quintal de minha casa. Sem um estúdio fotográfico em condições, improvisei uma tenda no terraço com paus e panos velhos. E porque agora tinha a possibilidade de trabalhar com outros actores para além de mim próprio (coisa inviável no Museu), pude convocar para as imagens uma figura que há muito me fascinava e que deu o nome à série: a “madrinha de guerra”.

    Personagem algo dúbia, patrocinada ao longo da guerra em África pelo Movimento Nacional Feminino com o objectivo de mitigar o isolamento das tropas através de uma activa troca de correspondência entre os soldados e as raparigas casadoiras na metrópole, a madrinha de guerra transforma-se aqui numa presença real, na materialização de um sonho, aterrando num palco de guerra vinda não se sabe de onde. É nesse mesmo palco que decorrem as cenas diversas, de uma série paralela que também aqui se apresenta pela primeira vez. Nas imagens de “flagelação”, o mesmo soldado que povoa as histórias anteriores procura agora proteger-se de uma agressão iminente, real ou imaginária.

    Já lá vão quase 3 anos de trabalho e sinto que ainda não esgotei este filão. Ao longo desse tempo li livros, vasculhei depoimentos sobre a “nossa” guerra, essa guerra de miséria e “pé descalço” tão próxima do Portugal rural da minha infância, mas em nenhum caso pretendi ilustrar factos reais, específicos. Por isso, as imagens muitas vezes escaparam-se à ideia que lhes esteve na origem e tomaram direcções imprevistas. Desligadas de uma leitura fixa e imutável, basta trocá-las de lugar para num instante tudo ser diferente… E a guerra de há 40 anos pode tornar-se na guerra de hoje.

    S. Pedro do Estoril, 2008 / 2009
    Manuel Botelho

  • A casa está calma e vazia. Vou tentando pintar qualquer coisa mas está a ser difícil acreditar no que faço. Aliás está a ser-me difícil acreditar seja no que for (da política às artes isto é uma miséria). Nada me interessa verdadeiramente e há muito que não vejo uma exposição de coisas recentes que me entusiasme. Vamos lá ver se Londres ajuda… mas sinceramente duvido. Há muita obra engraçada, muita ideia curiosa, mas nada que vá ao fundo das coisas e que me toque (na pintura o caso é ainda mais grave). E a ideia do artista solitário, essa espécie de “herói” (ou palerma…!) que avança sozinho sabe-se lá para onde é uma grande treta; sem companheiros de viagem ninguém chega a lado nenhum.

    31 de Agosto de 2005

  • 289 a 293.

    Culpa. Confissão. Os trabalhos em que me auto-represento como quem confessa um crime partiram das imagens do Luís Militão, o assassino dos turistas portugueses em Fortaleza.

    É-me extremamente penoso ser confrontado, todos os dias, com infracções e monstruosidades; às tantas é como se também eu fosse culpado de atrocidades inomináveis.

    S. Pedro do Estoril, 7 Dezembro 2004

  • Assassinatos. Sequestros. Escândalos sexuais e financeiros. Um mundo de discursos e falsidades à beira do colapso? Nos dias piores, a Maré Negra espalha-se por todo o lado, como a lava abrasadora de um vulcão. Não queima, mas nada consegue escapar à contaminação fétida desses momentos. E o nojo agarra-se à pele como borracha derretida. [...]

    As minhas pinturas não são isto. Porque as imagens existem num plano diverso do das palavras. As imagens dizem o que dizem, com o seu «idioma» particular.

    Para mais, nem tudo está perdido. Porque apesar de tudo as mães e pais ainda são ingénuos e as crianças inocentes. Às vezes. E em dias de sol o mar brilha.

    S. Pedro do Estoril, 13 Outubro 2004

  • Sobre obras realizadas entre 2001 e 2004 (172, 207, 221, 237, 240, 243, etc.).

    Balelas e pinturas. Visitações, baptizados e confirmações, penitências, flagelações, personagens do Botticelli ou do Poussin. Ainda! Será que a origem distante das minhas «estórias» e imagens verdadeiramente importa?

    E que dizer dos factos recentes? Serão eles mais relevantes? Ministros e arrumadores, figuras mediáticas à mistura com os zés-ninguém do dia a dia suburbano. Encontros e desencontros... Aventuras de crude no mar e contaminação das zonas costeiras.

    Dramas e violações, crimes reais e imaginários, casos de pedofilia e invasões militares. «Crianças» que matam e «crianças» que morrem. Discursos e tomadas de posse. Casamentos. Renúncias. Culpas e confissões.

    Uma irresistível atracção pela desgraça e por temas kafkianos? Não vale a pena continuar por este caminho. Depois de prontas, as pinturas têm uma autonomia que torna irrelevante a sua origem. Talvez. Era bom que assim fosse!

    S. Pedro do Estoril, 11 Setembro 2003

  • Carta (1)

    Chegados a este ponto do nosso diálogo vou falar um pouco de mim. Parece-me necessário para que possas entender as minhas posições.

    O que sou hoje é substancialmente diverso do que fui no passado... não muito distante. A minha vida tem sido uma longa sequência de abandonos e renovações, onde, apesar de tudo, sobrevive sempre uma profunda e inabalável crença.

    Tudo começou, como sabes, no berço e nos biberões. Nem vale a pena falar muito disso, embora seja tão decisivo que até me custa relembrar. Porque inculcou em mim uma duradoura crença na pintura, uma fé que em determinado momento mudou a minha vida. Quadros nas paredes, nos livros, por todas as casas da família e, mais tarde, nos grandes museus de Munique, Viena, Florença...

    Aos 18 e 19 anos fiz uma primeira revolução interior, influenciada pelas colagens POP. Mas foi muito fácil, porque podia manter íntegra a minha fé nas formas tradicionais da pintura (por via das colagens cubistas, dadaistas...) e nos conteúdos socialmente preocupados que muito mexiam comigo. Tínhamos assistido às revoltas de Maio de 68 e viviam-se as suas sequelas no movimento estudantil em Portugal. E Logo no meu ano de ingresso em arquitectura, na ESBAL!(2)

    Anos depois foi o tempo das convulsões que viraram o país do avesso e eu achei que agora era tudo mais claro. Umas leituras apressadas do Marx e do Lenine puseram-me no «bom caminho». Se a luta social era a coisa mais importante do universo, a arte devia forçosamente pôr-se servilmente ao seu serviço. Com o desfasamento de mais de 30 anos e uma fé inabalável na justiça do meu ideário político, lancei-me numa discreta produção merdo-realista . Durante esses anos de arquitectura dediquei-me à produção de desenhos anacrónicos, recusando liminarmente todos os vanguardismos da época, para mim profundamente reaccionários. Foi muito penoso. Embora sem qualquer militância política directa, vivia dividido entre a figuração de terrores pessoais e o dever político de servir uma causa.

    No início dos anos 80 as coisas mudaram. O meu casamento começou a dar o badagaio e a minha fé na grande ilusão hollywoodesca de uma vida em paz esfumou-se na dura realidade das coisas carnais. E recomecei a pintar. Como terapia, para exorcizar um profundo mal-estar e para voltar a existir no mundo, para redescobrir alguma coisa em mim que me salvasse do descalabro. Embora sempre muito perra e incipiente, a pintura começou a adquirir uma dimensão eminentemente pessoal e comecei a antever a necessidade de enterrar a arquitectura, sacrificando uma importante parte da minha vida para sobreviver à hecatombe.

    Foi a decisão de partir para Londres que pôs tudo a andar em definitivo. Nesse ano de 1983 a pintura neo-figurativa de pendor expressionista era a grande moda. E acertava em cheio com as minhas preocupações, em primeiro lugar porque se tratava de pintura - e por isso estava «geneticamente» caucionada pelo meu passado - mas também porque parecia falar da vida e, embora apenas pontualmente (ou ilusoriamente), de universos narrativos, privados, confessionais. Lancei-me numa profunda auto-análise que me levou a descobrir um mundo esquecido e primordial de pesadelos infantis e de um passado arcaico que se misturava com traumas do divórcio e do abandono. Tive assim que deixar para trás, em definitivo, as minhas raízes merdo-realistas, num trabalho de introspecção e confrontação com a arte que via por todo o lado.

    O regresso a Lisboa em 1987 correspondeu a outra fase. Mudanças na vida; mais um filho... e a noção clara de que algo estava a mudar no mundo das artes. Profundamente. As correntes neo-conceptuais encontravam-se em franca ascensão e voltava a falar-se à boca cheia na morte da pintura. A naturalidade com que tinha trabalhado em Londres chocava agora com uma realidade exterior cada vez mais adversa. E renasceu em mim o velho espírito de resistência; tinha sido da oposição nos tempos de Salazar e Caetano, tinha estado contra o Gonçalvismo (por ser «revisionista») e o Soarismo (demasiado social democrata), tinha odiado as neo-vanguardas dos anos 70 por não se colocarem ao serviço da Revolução serôdia que ainda me servia de referência; e agora estava condenado a regressar à oposição. Tinha terminado o período de paz, em que o mundo da arte parecia estar de bem comigo. Daí para a frente perfilava-se um longo tempo de novas e profundas contrariedades. Contra tudo e contra todos, «Pintura - Pintura - sempre e só Pintura», era o meu lema. Lia, visitava exposições de tudo e mais alguma coisa, informava-me, mas continuava a ser sempre a Pintura o centro da minha vida. Em todo o lado, em todas as circunstâncias. Depois, subitamente, o mundo da arte entrou em colapso. 1992 foi um ano terrível e a minha exposição de Londres não correu da melhor forma. Com a crise desencadeada pela guerra do Golfo nada se vendia. Em lado nenhum. E fui ensinar para o ArCO, para a galeria Monumental, para a Escola Secundária da Parede e, «last but not least», para a FBAUL.

    Encontrei uma situação interessante, tanto no ArCO, onde contactei o Pedro Calapez e o Rui Sanches, como na FBAUL(3), onde trabalhei com as pessoas de que falámos (4) e, sobretudo, iniciei um contacto frutuoso com os alunos, muitos deles extraordinariamente criativos e sem preconceitos. Vi-me forçado a olhar a arte de modo renovado; não podia permanecer fechado numa postura defensiva, com a ilusão de ter todo o mundo contra mim, porque agora eu tinha novas obrigações, novas responsabilidades. Já não era apenas o meu trabalho pessoal que existia na minha vida. E isso libertou-me uma vez mais de mim próprio. Porque hoje vejo-me forçado a reconhecer que o meu pior inimigo sou eu próprio, com as minhas obsessões e teimosias, embora esse seja também, paradoxalmente, o meu ponto de ancoragem.

    Em conclusão, tive que me abrir ao mundo e assumir outra atitude em relação à produção artística contemporânea. E descobri, para minha surpresa e felicidade, que há muito mais artistas a fazer fotografia, vídeo e instalação, que partilham o meu universo narrativo, do que pintores (contemporâneos claro está). Curiosamente, em vez de me sentir mais marginal, voltei a sentir-me reintegrado num mundo de significações. E embora subsista em mim uma profunda mágoa e revolta quando leio as atoardas mil vezes repisadas sobre o fim inexorável da pintura, ou quando sou agredido nas minhas convicções mais profundas por autoritarismos pseudo conceptuais, isso não me impede de olhar o mundo da arte contemporânea com outra abertura e outra alegria. Claro que continua a haver por aí muita merda, mas em boa verdade, também a pintura dos anos 80 pouco me dizia; embora gerasse uma ilusão de pertença, eu era estranho ao vazio dos fantasmas flutuantes e espalhafatosos do Salome, do Sandro Chia, etc.(5) Não me diziam nada. Em boa verdade sinto-me bem mais próximo dos vídeos do Bill Viola, das fotografias do Jeff Wall, ou das instalações confessionais da Louise Bourgeois. Por isso, para mim, defender a arte não é defender cegamente a pintura, embora quando entro no estúdio seja a pintura, sempre a pintura, que me ocupa os dias e a mente. Fiel aos meus princípios, tenho aprendido com a vida a renovar os meus interesses... e o Picasso e o Goya continuam a ser os meus grandes antepassados.

    S. Pedro do Estoril, 21 de Dezembro de 2002


    Notas:
    1. Carta a António Matos, 21 de Dezembro de 2002.
    2. Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.
    3. Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
    4. Isabel Sabino, João Afra, Francisco Aquino, António Matos, Virgínia Fróis.
    5. Entre as excepções a essa regra, devo assinalar uma particular empatia com Philip Guston, Sigmar Polke, Georg Baselitz (obras dos anos sessenta) ou Paula Rego.

  • 149, 151 a, 166, 168, 170, 171, 171, etc.

    1996/1997 foi um ano muito complicado [...] Quando o ano acabou encontrava-me completamente esgotado, cheio de sentimentos de auto-comiseração... de ressentimentos...

    [...] Essa sensação de infelicidade levou-me a olhar para o espelho. E de repente tornava-me no actor da minha pretensa «desgraça». Até aí a minha auto-representação tinha sido esquemática, transfigurada, pouco preocupada comigo, centrada num outro assunto: a relação aluno/professor. Mas agora pela primeira vez era eu que estava em causa. [...] Desenhei. Desenhei-me continuamente ao longo de dias. Há muito que não desenhava «modelo» de forma tão continuada (desde a minha passagem pela Byam Shaw School of Art em 1984 e 1985).
    [...]

    Entretanto a minha atenção tinha-se virado para os «agressores». [...] Jovens a lançar pedras ou em atitudes agressivas, já não tinham a conotação de revolta contra uma injustiça; eram antes agressões gratuitas, primárias, completamente destituídas de objectivo.

    De súbito tudo se associava e surgiam-me de uma memória recalcada as cenas da paixão de Cristo... O universo da minha pintura parecia resvalar para um território que a opção ideológica próxima do marxismo e a postura de ateu me tinham interdito durante anos. A arte do passado tornava-se surpreendentemente interventora, mesmo se o meu modo de repensar velhos temas os distorcia, os subvertia.

    A verdade é que esse olhar para o interior, associado a uma espreitadela a pinturas como a extraordinária Madonna and Child de Bellini (na National Gallery de Londres) ou a estranha versão de Grunewald (sobre o mesmo tema), me fizeram reflectir de outro modo sobre o que é ser pai hoje. Ser pai é muito como ser mãe, porque ser mãe é muito mais do que gerar e parir uma criança. Se me levanto à noite quando o filho chora, se lhe mudo a fralda e lhe dou a papa, se me preocupo com o frio e o calor, se compro Chocapic no supermercado e estendo à janela a roupa lavada, eu não sou pai no sentido tradicional do termo, mas mãe dos meus filhos. E se sou mãe, posso (?) ocupar o lugar da Virgem (!?) nas pinturas religiosas. [...]

    Visitação! Há algo de formal nessa cena. Uma proximidade em que pressinto um estranho distanciamento. Estarei a inventar, mas associo a cena às visitas de Estado de governantes e estadistas, ou aos cumprimentos que se trocam entre negociadores de grupos económicos... Homens de fato cinzento que enchem as páginas dos jornais, simultaneamente próximos e distantes, por vezes simulando atitudes de intimidade. Já não há pais ou mães, mas apenas encontros. Alguma coisa pode estar a mudar.

    S. Pedro do Estoril, Abril / Maio de 2000

  • Sobre as obras expostas no Museu Nacional de Arte Antiga em 2000

    Da vergonha de ser homem? Sequestradores, corruptores, violadores, indivíduos impelidos pela natureza para a conquista de território, levados à mais abjecta submissão à toda poderosa testosterona! As prisões estão cheias. É esta a vergonha de ser homem? Esta condenação a viver sob o domínio de um Satanás escondido nos chamados «impulsos naturais»?
    [...]

    Esta vergonha tem que ser expiada! (?) Será que me cabe a mim pessoalmente e a todos os outros que sentem este problema como eu, redimir os «pecados» dos nossos pares ancestrais, dos nossos pares de agora? Será isso que fazemos quando damos papa aos filhos? Cada vez mais, estamos a tornar-nos numa versão Honoris Causa da mãe de família [...]

    S. Pedro do Estoril, 18 de April de 2000

  • Todos os dias desejamos o novo processador, ainda mais rápido e eficaz. Todos os dias tememos a invasão do betão na paisagem. Bem e mal, a mudança tornou-se parte indissociável da nossa própria estabilidade. Contamos com ela e não sabemos imaginar-nos de outro modo. Para nos sentirmos vivos já não basta andar por aí. É preciso acompanhar a vertigem e quando falha a imaginação, finge-se mudar, porque há muitas outras tonalidades de azul para pintar o cabelo.
    [...]

    Todos os esboços de programa de acção soam a falso. A época dos manifestos parece encerrada, ou pelo menos adiada sine die . Nas palavras de Donald Kuspit, o universo da arte encontra-se actualmente povoado por Identidades Idiossincráticas , personalidades mais ou menos inclassificáveis que não podem enquadrar-se com rigor em qualquer esquema fechado. O mundo está irremediavelmente desarrumado.
    [...]

    Estamos tramados! A nossa esperança de vida é longa e através dos anos tudo tem que acontecer com mil cautelas. É imperioso evoluir... e paradoxalmente não podemos mudar!

    A aceleração do mundo diz-nos que parar é morrer. Mas por outro lado, a nossa proposta tem que ser claramente identificável para ganhar visibilidade, para existir. O nomadismo constante dificulta ou impede mesmo o reconhecimento público [...]. As forças divergentes do mito da consistência do artista e, simultaneamente, a necessidade imperiosa de progredir, colocam-nos no fio da navalha, divididos entre forças de sinal contrário. Temos que ser ao mesmo tempo iguais e diferentes de nós próprios. Não há saída fácil para este problema, agora que a velha artimanha do « estilo individual » parece ter-se tornado definitivamente obsoleta. [...]

    S. Pedro do Estoril , Janeiro/Maio de 2000

  • Há dias, uma aluna minha mostrava a sua inquietação e perplexidade perante a quase infinita gama de possibilidades técnicas e formais na resolução de um exercício. Quando a insegurança se instala, a responsabilidade da escolha transforma-se em inimiga da liberdade (é bem mais fácil obedecer a regras impostas). [...]

    O dia a dia no atelier é uma actividade solitária. O isolamento torna-nos vulneráveis, ansiosos por sentir que existimos, que não é inútil o que realizamos. Para quê mais objectos, quando o mundo está a abarrotar de tralha? Para quê mais pinturas, se nas paredes não resta espaço para as arrumar? Para quê mais ideias que outros já exprimiram? E aí vamos nós em busca de legitimidade, desesperadamente, como o viajante do deserto à procura de um oásis. A miragem está lá, mas fugidia, esquivando-se a todo o momento... Compram-se revistas, visitam-se as exposições mais badaladas da actualidade, e regressamos ao estúdio com «mais força», mais iludidos que convencidos. Por favor digam-nos o que devemos fazer... que regras cumprir...

    A liberdade que conquistámos pesa como chumbo, é intolerável e opressiva... deixem-me ser da oposição! Deixem-me ser do «Regime»!... Mas sobretudo deixem-me ver com clareza quem são os bons e os maus, os belos e os feios, os justos e os falsos... Merda.

    S. Pedro do Estoril , Janeiro 1995

  • Sobre obras como Devastação – Sorrow with Angels, 1994 (137), ou Lamentos à Deriva - The Killing, 1995 (136).

    Estava eu na praia, quando vejo na revista do Expresso imagens dos massacres (salvo erro do Ruanda). À minha frente, pessoas a corar ao sol, nas fotografias, cadáveres prostrados a apodrecer.

    Abril 2000

  • Tenho vindo em parte a sacrificar a riqueza da cor a uma maior estruturação do espaço.

    Cada pintura é um universo limitado que exige escolhas e sacrifícios. Não esqueço a lição de Picasso quando excluiu a cor de «Guernica» (o que provoca uma contenção emocional) ou Matisse quando pinta «A dança» em praticamente 3 cores base. [...]

    Londres, Abril 1994

  • 129, 132, etc.

    Serão anjinhos? Serão assassinos? Tudo isso. Dava aulas na escola secundária da Parede. Quando observava os meus alunos via alternadamente o seu ar angelical e, em alguns, a faceta mais agressiva da humanidade. Duplicidade. Coexistência de opostos.

    S. Pedro do Estoril , April de 2000

  • Gosto de pintura com cheiro em oposição à pintura asséptica

    S. Pedro do Estoril , 1994

  • Sobre "A tralha e a família – She Carries them Everywhere", 1992 (118).

    Continuo a ter sentimentos contraditórios relativamente à humanidade; por um lado acho a nossa estupidez desprezível e simultaneamente admiro a coragem de resistir na adversidade... [...] Para mim, esta mulher quadrada , estúpida e incrivelmente forte, é a figura de uma espécie de heroína resistente que leva a sua avante dê lá para o que der.

    Londres, Abril de 1994

  • [...] no nosso país não se operaram verdadeiras rupturas, mas apenas «variações» em torno de movimentos importados. Isto não constitui a meu ver uma inferioridade, pois não é toda a gente que inventa o cubismo ou a teoria da relatividade, mas todos temos o direito, senão o dever, de assimilar essas lições. Deveríamos talvez rescrever a cronologia (ou «história»?) da arte em Portugal com maior atenção à verdadeira qualidade, e menor fascínio pela pseudo-inovação [...]

    S. Pedro do Estoril, Fevereiro 1994

  • Carta aos Colegas das Artes

    No mundo da moda, colecções diferentes cada ano asseguram um renovado interesse do público. No intrincado jogo todos procuram antecipar/moldar as oscilações do gosto. [...] O mundo das artes funciona um pouco do mesmo modo.

    Há poucos anos, jovens que "militavam" pintando clandestinamente as paredes e comboios do metropolitano de Nova Iorque foram descobertos pelo mercado. O sistema encontrou um filão e as galerias encheram-se de graffiti. Salvo raras excepções, [...] estes jovens estão novamente a "lavar pratos", a onda desfez-se. Não significa isto que o graffiti tenha acabado; apenas o mercado se fartou.

    Nos anos 60 vimos surgir mais uma vaga de pintura abstracta. Após quase duas décadas de esquecimento eis que renasce uma nova corrente de abstracção – Neo Geo. Embora com um espírito subtilmente diverso, os princípios são basicamente os mesmos e parece-me absurdo pensar que este trabalho tenha permanecido obsoleto durante o interregno para voltar a ser relevante 15 anos mais tarde.

    Nos anos 70 as correntes predominantes negavam a validade da pintura. Gritava-se "A PINTURA MORREU" e houve quem escrevesse no currículo a data em que tinha deixado de praticar esse crime estético. Surpreendentemente uma nova onda surge no início dos anos 80, e à cabeça aqueles que andavam fora de moda. O público mais vasto conheceu finalmente as pinturas figurativas (horror dos horrores!) que Baselitz, Penck, Guston ou Kiefer vinham fazendo desde há muito.

    Que existe um mercado internacional da arte é coisa sabida. Que ele tem maior vitalidade nos países ricos da Europa e nos EUA, parece evidente. Não espanta por isso que a conjuntura internacional da arte esteja na sua directa dependência [...]. A validade das formas culturais não pode no entanto ser julgada por critérios que apenas fazem sentido para esse mercado de ponta.

    Se é verdade que muita da produção artística actual é (como sempre foi) genuinamente bolorenta, isso não significa que em cada momento apenas sejam relevantes as tendências estéticas ditas "na berra"; um vasto potencial de criação sobrevive à margem dessas correntes. Nas capitais da arte milhares de artistas trabalham diariamente das mais diversas formas; é nessa enorme riqueza que o sistema vai encontrar o "ar fresco" de que precisa quando o público começa a cansar-se da vaga anterior.

    Essa necessidade periódica de mudança tanto leva à promoção de tendências menores e oportunistas, como à de correntes genuínas, culturalmente relevantes. As primeiras constituem geralmente acontecimentos isolados, pontuais, ou derivativos (pequenos becos sem saída). As segundas são como elos nas vagas de fundo do pensamento artístico do século XX.

    [...]

    E agora a questão central, aquela que me levou a escrever todo este arrazoado: Que fazer (nós, artistas) no meio de tudo isto? Deixar o cinismo tomar conta, ou manter uma atitude positiva?

    Nessa selva que é o mundo das artes uns jogam pelo seguro tentando acompanhar a onda, mudando de estilo como quem muda de camisa até que alguém dê por eles. Mais cedo ou mais tarde a falta de autenticidade irá tornar-se evidente; um hipotético sucesso será sempre efémero. Outros prosseguem o seu trabalho sem negar influências mas sem abdicar da sua identidade. E se a maioria destes vai permanecer numa marginalidade mais ou menos obscura, alguns são no entanto os verdadeiros criadores do futuro; o trabalho que realizam hoje constitui o potencial da arte do amanhã.

    S. Pedro do Estoril, Março de 1988 – Texto publicado no Jornal de Letras em 5/4/1988

  • Se no meu trabalho também surge a experiência pessoal ou os meus pesadelos, eles referenciam-se sempre ao contexto mais vasto da vida social, e nunca constituem campo isolado.

    A minha narrativa está aberta ao exterior. As memórias da minha infância são as personagens que conheci, as suas vidas, como eu os interpreto. São arquétipos dum Portugal rural que me chegou por via das criadas e caseiros [...] da terra da minha avó materna.

    A Sofia [criada lá de casa durante mais de 40 anos] é aquela personagem feminina, compacta, cheia de força, dominada por valores de submissão quase medievais.

    A minha história é também a do fim de uma era; tenho sido testemunha disso. A desertificação do campo, os comboios cheios de emigrantes...

    Os que ficam e os que partem. Gente que eu conheço e que são o símbolo de valores perdidos e valores ganhos, "vítimas" de uma mudança sem retorno.

    Londres, 31 Janeiro 1986

  • [...] O equilíbrio não faz parte desta vida em 1986. Por vezes parte do edifício desmorona-se. Aqui ou ali, uma cena de paz aparente em que as figuras executam tarefas (geralmente não específicas).

    Há sempre uma grande dose de angústia mesmo quando as cores são brilhantes – claras. [...]

    Londres, 1986

  • Contornar os problemas; abordá-los no seu reflexo. A melhor forma de falar duma bicicleta não é tirando-lhe uma fotografia, mas falando na cifose (na marreca) do ciclista.

    Londres, 20 Maio 1985

  • Não é a nostalgia do passado. O passado é um pesadelo que sobrevive no presente sob diferentes formas.

    Londres, Abril 1985

  • Deslocando uma cena de prisão para o exterior, criando uma paisagem imaginada em que decorrem os actos, estes ganham poder evocativo. São parábolas sobre os antigos temas.

    Londres, 25 Março 1985

  • 028, 029, 029 a, etc.

    [...] O ambiente está a ficar mais ou menos tenebroso, com a utilização do preto. As caras misturam-se com volumes que podem ser rochas, edifícios, castelos. Como relembrar um pesadelo; os locais vão sendo sucessivamente outros. Preciso introduzir mais narrativa? Aqui é que bate o ponto. E contar o quê?

    Londres, 30 Novembro 1984

  • Sobre obras como as da série Country by the sea (c. 1984) – 023 d, etc.

    a) A importância do tema.
    Imagens / sentimentos do passado português (talvez também de outros países latinos).
    Não são ilustrações de acontecimentos particulares ou factos históricos. Não estão localizados no tempo.

    b) As figuras são por vezes definidas; claramente construídas e colocadas no espaço (um pouco como Guston). Noutros casos, trata-se de figuras de sonho num espaço (ambíguo) complexo (próximo do cubismo).

    c) A maior parte das obras têm uma estrutura central como um alvo. Não sei se tentarei uma forma mais difusa de as construir, com vários pontos de interesse e talvez mesmo uma narrativa. Até agora, a narrativa mantêm-se sobretudo nas séries completas (que funcionam como unidades em si).

    Londres, Outubro 1984

  • Sobre obras como Desde que eles vão bebendo uns copos (026), 1985, Atolado na Lama (029), 1985, etc.

    Quando a mensagem é profundamente sentida não é possível (?) transformá-la numa imagem com força equivalente.

    [...] É preciso agarrar uma ponta e ir puxando o fio. Usar o que é pintável .

    [...] Qual o campo específico da pintura? Não adianta tentar fazer cinema ou literatura pintando.

    Londres, Outubro de 1984

  • A propósito de desenhos de modelo (c. 1985) – 011, 012, 016, etc.

    O modelo está ali. É a presença. O desenho começa aí. Depois o desenho ganha personalidade própria. O modelo passa a ser apenas uma referência (uma ferramenta?), até o desenho ter vida própria, autenticidade.

    O modelo foi o ponto de partida, em seguida o interlocutor, mas no final o que importa é o desenho em si e não uma efémera semelhança.

    Por isso, frequentemente continuo a trabalhar depois de o modelo ter ido embora. O desenho ganhou autonomia.

    Londres, 22 e 23 Maio 1985

  • Sobre o seu percurso criativo em 1984
    Resolvo fazer «auto-terapia»; desenhar tudo o que me vier à cabeça sem preocupações formais.
    [...]

    Durante 2 meses executo cerca de 5 desenhos por dia focando os temas mais díspares; educação, casamentos, sexo, paisagens portuguesas, etc.

    As ideias surgem de toda a parte; livros, sonhos, memórias, notícias do jornal, conversas, programas de televisão.

    Londres, 12 de Junho de 1984 (de um relatório enviado à Fundação Calouste Gulbenkian)